sexta-feira, 8 de maio de 2009

PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente,
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale sutilmente, no ar,
a trevo machucado,as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana

Essa vai pra minha duplinha Mary( com licença para usar a expressão da duplinha Lú e Ari).
postado por Renata Muniz

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Poemas de Alberto Caeiro

Heterônimo do poeta modernista português Fernando Pessoa, assim dizem da morte:

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera
passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
(7-11-1915)

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

(postado por Renata Pimentel)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

foto: Júlio Morais



















Parece um Sonho...

"Parece um sonho que ela tenha morrido!"
diziam todos... Sua viva imagem
tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar da viagem...
- até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
"Parece um sonho que ela tenha vivido!"

Mário Quintana

sexta-feira, 1 de maio de 2009

os frutos do processo

hoje, em meio ao ensaio, em momento de uma passagem geral corrida do espetáculo em sua forma ainda não lapidada, em processo, com a equipe de criação praticamente toda reunida, sentada em torno das bailarinas (já como se em uma arena), enquanto assistia às bailarinas Maria Agrelli e Renata Muniz interpretando o que está criado para o espetáculo, e ponderando sobre novas decisões e escolhas - também ainda em transformação -, as palavras foram se configurando assim:

mesmo aguardado é
susto
desejo de suster
reverter o irrevogável

ar que não se move
sopro suspenso

procuro a voz
cheiro sinais
que prolonguem
aqui
um além

reverso

onde vivos seguem
dores alento saudade

quem morre
nem sempre
parte

todo dilacerado
em outra parte.

(postado por Renata Pimentel)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Primeiro laboratório (07/01/2009)

Utilizando metáforas corporais, este foi o primeiro laboratório para o sentimento de perda.

Improvisação de Renata Muniz

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Nova inspiração


"Dói-me a cabeça aos trinta e nove anos.
Não é hábito.
É rarissimamente que ela dói. Ninguém tem culpa.
Meu pai, minha mãe descansaram seus fardos, não existe mais o modo de eles terem seus olhos sobre mim. Mãe, ô mãe, ô pai, meu pai.
Onde estão escondidos?
É dentro de mim que eles estão.
Não fiz mausoléu pra eles, pus os dois no chão.
Nasceu lá, porque quis, um pé de saudade roxa, que abunda nos cemitérios.
Quem plantou foi o vento, a água da chuva.
Quem vai matar é o sol. Passou finados não fui lá, aniversário também não.
Pra quê, se pra chorar qualquer lugar me cabe?
É de tanto lembrá-los que eu não vou.
Ôôôô pai Ôôôô mãe
Dentro de mim eles respondem tenazes e duros
porque o zelo do espírito é sem meiguices:
Ôôôôi fia."

Adélia Prado
(Poema Esquisito)

Postado por Renata Muniz
Foto: Júlio Moraes

terça-feira, 28 de abril de 2009




Ensaio Leve - dia 21 de abril
Foto: Júlio Moraes