terça-feira, 12 de maio de 2009

um dia minha mãe morreu

Minha primeira postagem aqui no blog vem meio triste, envolta na semana em que completam cinco anos que minha mãe, Tereza Noronha, faleceu de repente. Segue a poesia escrita um ano depois:

Um dia minha mãe morreu
E foi como se ...
...
Uma mãe tivesse morrido

Morreu, assim, intransitivo
Levando peito, ventre, palavra de mãe
Saiu a terra dos meus pés, e o tempo ficou parado
como a imagem do céu azul enquanto o carro anda

lembro da surdez, do filme mudo que passava em tela panorâmica
lembro do calor, que invadiu minha cabeça
como se uma alma tivesse ali se condensado e saído de mim
da minha irmã sem forças nas pernas
do meu irmão tentando raciocinar
essa dor que não se compartilha, nem com os irmãos

Eu não sabia nada
Não havia metáfora, nem pista de como lidar
Havia o choro, como ainda há
E uma leve esperança de sobreviver.


Valéria Vicente

sábado, 9 de maio de 2009

Dizem que o tempo ameniza
Isto é faltar com a verdade
Dor real se fortalece
Como os músculos, com a idade

É um teste no sofrimento
Mas não o debelaria
Se o tempo fosse remédio
Nenhum mal existiria

Emily Dickinson

(postado por Nana)

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Sem amarras

(e assim foi, que um dia escrevi...)

a forma mais simples que me ocorre de expressar:
queria dizer com a maior precisão
sem que a metáfora abrisse mão de sua pessoal polissemia
eu queria
que se fizesse entender de múltiplo jeito
único
o que a falta de ti
em mim faz existir
uma morte devia ser fim
mas quando um se vai
ficam todos os outros
condenados a uma permanência

o que a tua ausência deixou em mim


o que a tua ausência deixou em mim
é a maior e melhor parte do que sou.

herança genética é somente razão

quero mesmo o saber de sentir,
que nem mesmo carece de explicação
apenas constata-se: é!


a forma mais simples que me ocorre de expressar:
é poder torcer a gramática
elastecer regras para caber
nelas o indizível
nelas o que não se pode medir
um diapasão que rompe os metros
um reverso de mim.

sorri de uma dor,
porque no meio há a lembrança
feliz e indecente
do dia em que aprendi:
a cada três passos meus
chegava em ti.

o abraço era a distância maior
entre a gente,
porque meu olho já te dizia:
mesmo quando fores
romperei peito e casca
crostas que nem sei ter
mas permanecerei em ti
que me levas e me deixas
te fazer seguir

(postado por Renata Pimentel)

PRESENÇA

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente,
o vento das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua ausência trescale sutilmente, no ar,
a trevo machucado,as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso a saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.

Mário Quintana

Essa vai pra minha duplinha Mary( com licença para usar a expressão da duplinha Lú e Ari).
postado por Renata Muniz

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Poemas de Alberto Caeiro

Heterônimo do poeta modernista português Fernando Pessoa, assim dizem da morte:

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera
passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
(7-11-1915)

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.
Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as cousas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as cousas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

(postado por Renata Pimentel)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

foto: Júlio Morais



















Parece um Sonho...

"Parece um sonho que ela tenha morrido!"
diziam todos... Sua viva imagem
tinha carne!... E ouvia-se, na aragem,
passar o frêmito do seu vestido...

E era como se ela houvesse partido
e logo fosse regressar da viagem...
- até que em nosso coração dorido
a Dor cravava o seu punhal selvagem!

Mas tua imagem, nosso amor, é agora
menos dos olhos, mais do coração.
Nossa saudade te sorri: não chora...

Mais perto estás de Deus, como um anjo querido.
E ao relembrar-te a gente diz, então:
"Parece um sonho que ela tenha vivido!"

Mário Quintana

sexta-feira, 1 de maio de 2009

os frutos do processo

hoje, em meio ao ensaio, em momento de uma passagem geral corrida do espetáculo em sua forma ainda não lapidada, em processo, com a equipe de criação praticamente toda reunida, sentada em torno das bailarinas (já como se em uma arena), enquanto assistia às bailarinas Maria Agrelli e Renata Muniz interpretando o que está criado para o espetáculo, e ponderando sobre novas decisões e escolhas - também ainda em transformação -, as palavras foram se configurando assim:

mesmo aguardado é
susto
desejo de suster
reverter o irrevogável

ar que não se move
sopro suspenso

procuro a voz
cheiro sinais
que prolonguem
aqui
um além

reverso

onde vivos seguem
dores alento saudade

quem morre
nem sempre
parte

todo dilacerado
em outra parte.

(postado por Renata Pimentel)